Bom é ser eu.
Bom é saber que barcos e barcos passaram pelas águas intempestivas da minha alma e que mesmo assim encontraram quietude no pontão deste meu corpo desmazelado. É bom saber que não mudei. Saber que me erigi ainda mais forte, de faca em punho e rosa na lapela, pronta para travar mais uma contenda. Saber que amigos só tenho os que tenho (e não os que julguei ter).
Bom é ser eu.
Reconhecer que neste meu sangue fervilham valores que me foram passados pelos meus mentores, alguns dos quais desvirtuados pelas chagas da vida; outros tantos nascidos das mesmas mazelas. Bom saber que aprendi tanto. Aprendi que muitas vezes me perdi, mas que encontrei o meu caminho. Muitas vezes caí e tantas outras me levantei. Nem todo o rio que tentei atravessar me deu tréguas; nem toda a porta que tentei abrir me mostrou o outro lado.
Bom é ser eu.
Bom é esperar que a tempestade acalme no meu coração impetuoso e irascível… e ver que afinal sou cordeiro terno e sadio. Saber que trago em mim uma força pronta a brotar de cada vez que me pisam a mão do afecto, chacoteiam da minha natureza, ou me ferem o orgulho! Saber sarar-me desde os
interstícios do meu ventre aos pequenos e atolados quartos da minha emaranhada cabeça. Sorrir de cada vez que coloco gaze no meu ego… e acreditar uma vez mais!
Bom é ser eu.
Bom é saber que afinal não lançaram mal os dados da minha existência! Aprendi que a minha tristeza é ténue e
escorreita, que a minha alegria é fugaz e vigorosa, e que não passo sem nenhuma das duas! Aceitei finalmente que sou humana. E lá porque por vezes me perco, não quer dizer que esteja perdida…
Bom é poder arregaçar as calças, entrar nas frias águas de mais um rio… e novamente desafiá-lo com toda esta minha delicada, porém infatigável Humanidade.